Além da técnica: formação de Agentes Técnicos do projeto “Comida da Terra na Mesa do Povo” celebra intercâmbio de saberes em Salvador e Valença-BA

Descrição do post.

5/8/20263 min read

Entre os dias 27 de abril e 04 de maio, técnicos e mobilizadores da COOPEMARC se reuniram presencialmente para a primeira formação do projeto “Comida da Terra na Mesa do Povo – Agroflorestas, Quintais e Biointerações. Esta iniciativa, que integra o programa nacional “Da Terra à Mesa Brasil”, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), assume a missão central de executar ações de ATER com foco na estruturação produtiva para a promoção da transição agroecológica, utilizando como referência os Sistemas Agroflorestais (SAFs) associados a quintais produtivos. O projeto busca não apenas a produção de alimentos saudáveis e a preservação ambiental, mas o fortalecimento da agricultura familiar em comunidades indígenas, quilombolas, assentamentos da reforma agrária e populações atingidas por barragens.

A proposta estratégica da COOPEMARC prevê a realização de três metas, que se entrelaçam para garantir o fortalecimento dos territórios. A primeira meta foca na estruturação produtiva, viabilizando a implantação de SAFs, quintais agroecológicos e viveiros comunitários. A segunda persegue a garantia de acompanhamento técnico continuado às 400 Unidades Familiares de Produção Agroecológica (UFPA) por meio de Assistência Técnica e Extensão Rural Agroecológica, com base em metodologias participativas e no protagonismo comunitário; enquanto a terceira meta promove a potencialização de capacidades técnicas e de articulação para o desenvolvimento rural sustentável de Agentes Populares de Transição Agroecológica através da execução de Rotas formativas em Agrofloresta, Educomunicação e Bioinsumos, com base na Escola da Cooperação Campo-Cidade.

A formação dos técnicos foi idealizada para refletir essa complexidade, ocorrendo em dois momentos complementares de intenso aprendizado. A atividade alternou estudos teóricos no Instituto Iara e imersão prática no Território Indígena Guerém. Na sede do Instituto Brasileiro de Apoio ao Desenvolvimento Humano e Social (IARA), a equipe mergulhou nos fundamentos da ATER agroecológica, alinhando procedimentos operacionais, o uso da caderneta agroecológica e metodologias de diagnóstico situacional através do estudo de produções audiovisuais e discussões sobre o papel do extensionista. Neste espaço, segundo o coordenador do projeto, Cláudio Lisboa, “a atuação da COOPEMARC no campo deve ser compreendida como um processo educativo e mediador, onde o técnico não é um mero transmissor de pacotes tecnológicos, mas um comunicador popular e mobilizador social disposto a construir soluções técnicas apropriadas a cada realidade, respeitando sempre a autonomia e a ciência das famílias agricultoras”, enfatizou.

O percurso formativo tomou forma ao deslocar-se para o Território Indígena Guerém, em Valença-BA, transformando-se em um verdadeiro intercâmbio de saberes. Os agentes puderam conhecer de perto a realidade das comunidades que serão acompanhadas, participando de rodas de conversa e oficinas práticas de campo. Um dos destaques foi a confecção e instalação de iscas para abelhas sem ferrão nos quintais produtivos, uma tecnologia social que une a conservação da biodiversidade à segurança alimentar. A vivência prática permitiu que os técnicos entendessem o manejo agroflorestal e os sistemas de produção animal e vegetal sob a ótica da sabedoria local, culminando no ritual sagrado do Toré. Este momento de espiritualidade e resistência permitiu à equipe acessar a ancestralidade do povo Guerém, consolidando a ideia de que a técnica deve estar a serviço da vida e da cultura. Ao final, a formação enfatizou o fortalecimento da equipe técnica como agentes de transformação social.







Ao integrar planejamento participativo, vivência comunitária e alinhamento operacional, a formação preparou os agentes para o desafio imediato de finalização do cadastramento das Unidades Familiares de Produção Agroecológica (UFPA) na Bahia e no Paraná. Com o entendimento de que a extensão rural é um ato político e pedagógico, a COOPEMARC reafirma seu compromisso de garantir que a transição agroecológica seja trilhada de mãos dadas com os povos tradicionais, assegurando que o alimento saudável na mesa seja fruto de territórios fortalecidos em sua identidade e sustentabilidade. O conhecimento partilhado durante a formação será a base para a elaboração dos diagnósticos territoriais e, posteriormente, dos Planos de Transição Agroecológica que orientarão as ações nos próximos meses.