Projeto “Comida da Terra na Mesa do Povo” inicia sua jornada de campo com oficinas de apresentação e diagnóstico na Bahia e no Paraná
3/10/20264 min read


Visando reconstruir políticas públicas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar, ao combate à fome e à transição agroecológica no Brasil, o projeto "Comida da Terra na Mesa do Povo – Agroflorestas, Quintais e Biointerações" deflagra suas atividades nos estados da Bahia e do Paraná. Esta rodada de oficinas de apresentação constitui o passo inicial para o cadastramento das Unidades Familiares de Produção Agroecológica (UFPA) e a elaboração de diagnósticos iniciais sobre os territórios, bases fundamentais para o posterior desenvolvimento dos Planos de Transição Agroecológica.
A proposta é executada pela Cooperativa de Profissionais Autogestionados do Campo e da Cidade (COOPEMARC) e integra o programa nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) “Da Terra à Mesa Brasil”. A atuação abrange diversos municípios, desde o território indígena Guerém, em Valença-BA, até assentamentos em São Miguel do Iguaçu e Quedas do Iguaçu, no Paraná, além de outras comunidades baianas em Taperoá, Boa Vista do Tupim, Ribeirão do Largo e São Félix.
No Paraná, as atividades de apresentação do projeto também mobilizaram dezenas de famílias assentadas da Reforma Agrária e grupos organizados da agricultura familiar agroecológica. Em Quedas do Iguaçu, a reunião de trabalho realizada pelo Instituto IARA em parceria com a COOPEMARC reuniu cerca de 120 famílias assentadas para a apresentação das diretrizes do programa Terra Mesa, articulando escuta territorial, planejamento participativo e fortalecimento produtivo em uma região marcada historicamente pela luta pela terra e pela organização camponesa. A atividade ocorreu em um contexto de reafirmação dos direitos territoriais e reconstrução das políticas públicas voltadas aos assentamentos da Reforma Agrária no Paraná, fortalecendo perspectivas de permanência digna no campo e ampliação da produção de alimentos saudáveis.
Já no litoral paranaense, em Morretes, o Instituto IARA e a COOPEMARC participaram de encontro com famílias da Cooperativa Colipa, na comunidade Rio Sagrado, território reconhecido pela forte presença da produção agroecológica e pela relação histórica das comunidades com a Mata Atlântica. O encontro consolidou diálogos sobre agroecologia, organização coletiva e fortalecimento das cadeias produtivas locais, aproximando o projeto das experiências construídas pelas famílias agricultoras da Serra do Mar e do litoral do Paraná. As atividades também reforçaram a importância do cooperativismo, da preservação ambiental e da valorização dos saberes populares como elementos estruturantes para o desenvolvimento territorial sustentável.
Nos territórios assistidos, como no Guerém, o projeto reaviva contornos identitários e contribui em processos históricos de luta pela retomada territorial e fortalecimento cultural. A atuação fundamenta-se na valorização dos saberes e modos de vida tradicionais, alinhados aos conhecimentos técnicos e guiados por uma assistência técnica e extensão rural (ATER) agroecológica concebida não como mera difusão de tecnologias, mas como processo formativo, emancipador e dialógico, centrado na ciência dos povos, na construção coletiva de soluções técnicas apropriadas e no fortalecimento da autonomia produtiva.
Estratégia e Impacto Socioambiental
A estratégia de ação foca no combate a problemas como o acesso limitado a crédito e pressões de empreendimentos predatórios; na difusão das potencialidades locais com o aproveitamento das condições excepcionais para a produção de alimentos saudáveis e na implantação produtiva de sistemas agroflorestais e quintais agroecológicos, mediados pela formação de agentes populares locais de Transição Agroecológica.
Tais metas visam gerar transformações profundas na realidade socioambiental dos territórios e comunidades, fortalecendo a segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental via bioinsumos e o empoderamento comunitário. Nos assentamentos e comunidades acompanhadas no Paraná, as oficinas também evidenciaram a importância da organização coletiva e da agroecologia como caminhos estratégicos para enfrentar desafios históricos relacionados à concentração fundiária, às vulnerabilidades socioeconômicas e às mudanças climáticas, fortalecendo redes locais de produção e circulação de alimentos saudáveis.
Liderança e Protagonismo
No território Guerém, a condução das atividades possui uma liderança estratégica atuando em três frentes complementares: como Diretor Financeiro da COOPEMARC, Agente Mobilizador local e membro da própria comunidade, Gilson Filho personifica o objetivo do projeto em promover o protagonismo das comunidades tradicionais e sintetiza a importância da iniciativa:
“No Guerém, o projeto contribui significativamente ao desenvolvimento da nossa autonomia e identidade ao unir o suporte técnico da COOPEMARC à nossa sabedoria ancestral de proteger, plantar e nutrir nosso território. Essa parceria garante dignidade, amplia a diversidade alimentar das famílias e potencializa um manejo sustentável da nossa Mata Atlântica, gerando saúde, fortalecendo vínculos comunitários e renda dentro do nosso próprio território”, celebra Gilson.
Ao final do ciclo, a COOPEMARC prevê a implantação de 400 UFPAs, garantindo que pelo menos 50% das beneficiárias sejam mulheres e 20% sejam jovens. As oficinas e cadastramentos realizados agora asseguram que o futuro Plano de Transição Agroecológica de cada família seja elaborado a partir da realidade concreta e das potencialidades de cada território.


Famílias agricultoras participando de oficina de apresentação do projeto em Quedas do Iguaçu - PR.
Famílias da Cooperativa COLIPA, em Morretes - PR.


Famílias agricultoras participando de oficina de apresentação do projeto no território indígena Guerém, em Valença-BA.
